Y July Interview
Alguns rapazes do campo são melhores que os da cidade
Kings Of
Convenience
Por VÍTOR BELANCIANO
Sexta-feira, 5 de Julho de
2002
No
festival das electrónicas do Meco os noruegueses Kings Of
Convenience vão revelar a sua música acústica,
minimal e límpida. Nós só temos que
escutá-la. Só eles os dois, as vozes, as guitarras.
Não têm nada a esconder, diz Erlend Oye.
Toda
a gente sabe (e nem sequer é necessário ser-se doutorado
em música) que a proposta dos noruegueses Kings Of Convenience,
cabeças de cartaz do Festival do Meco [onde actuam entre as
22h30 e as 24h], não é propriamente
revolucionária. Mas quando nos libertamos do espartilho das
convenções, também percebemos que a música
dos Kings Of Convenience deixa um enorme espaço em aberto para
fazermos dela o que quisermos. Isso explica porque é que
álbuns como "Quiet Is The New Loud" e "Versus", do ano passado,
mesmo estando longe de serem obras-primas, são discos a que
apetece voltar. É música sem receio do silêncio
à sua volta e onde aquilo que ouvimos é mesmo aquilo que
desejamos ouvir.
Ao
lado dos amigos Röyksopp, a dupla Erlend Oye, o
caixa-de-óculos ruivo, e Eirik Glambek Boe, o moreno,
tornaram-se figuras maiores da pop moderna norueguesa com direito a
projecção mundial. São, essencialmente, um
projecto acústico que cria canções
melódicas de teor clássico. Há três semanas,
em Barcelona, o Y foi descobrir Erlend Oye a passear pelo Festival
Sónar e ficou curioso.
É
verdade que Erlend Oye também é DJ e está a
trabalhar num projecto solitário electrónico [que vai
apresentar no Meco em sessão DJ às 01h15]. Também
não é menos certo que o
álbum-compilação "Versus" continha
colaborações, novas versões e remisturas de
algumas das faixas do álbum "Quiet Is The New Loud". Mas, mesmo
assim, fica a interrogação: porque é que os Kings
Of Convenience são tão respeitados pelos adeptos das
electrónicas ao ponto de tocarem em eventos de música
dançante? Erlend também não parece saber a
resposta.
"De
facto, é surpreendente. A maior parte das pessoas que se
interessa por nós, inclusive editoras, estão conotadas
com a electrónica. Talvez seja esse jogo de contrários
que agrada. Por outro lado, pode ter a ver com o facto de a nossa
música evocar alguns dos 'samples' que são utilizados por
muitos desses projectos. Não tenho uma explicação
precisa. Na verdade, gosto de electrónicas e desde 1997 que
realizo sessões DJ em Bergen. No entanto, não gosto muito
da filosofia dos disc-jockeys que apenas se preocupam com a qualidade
da mistura, com a técnica. Gosto de gente que me surpreenda e
que saiba intuir qual o momento exacto para colocar determinado disco
ou som".
Nas
sessões DJ de apresentação do projecto a solo,
Erlend canta, o que não é de todo vulgar. Ainda menos
usual é a remistura que os Kings Of Convenience fizeram para o
japonês Cornelius. Normalmente, quando um grupo recria um tema
alheio tenta respeitar os elementos sonoros ou vocais mais importantes.
Os noruegueses não só não fizeram isso, como
adicionaram a sua própria voz, cantando por cima do original. No
mínimo, invulgar.
"Eu
sei, eu sei...[risos]. Mas Cornelius não se importou, até
gostou da ousadia. O conceito de remistura, para mim, é muito
natural: trata-se de dar a algo a alguém em quem confiamos para
ele fazer o que lhe apetecer. Gostava muito, por exemplo, que um
projecto electrónico convidasse os Kings para recriar
versões acústicas dos seus temas. Pode parecer estranho,
mas é disso que se trata. As remisturas devem funcionar como
possibilidade de fazer algo de diferente. O desafio é esse. As
pessoas que vêm ter connosco pressionam-nos para que
façamos remisturas na mesma linha do álbum, porque
é essa a sonoridade que as pessoas esperam dos Kings, mas isso
não nos interessa".
nostalgia.
Por falar em pressão. O duo tem agora que lançar um novo
disco de originais. Tem que saber gerir a expectativa de quem gostou do
primeiro. Em entrevista ao Y [15 de Fevereiro 2002] a outra metade do
duo, Eirick, dizia que iria ser um disco mais diverso. Mas Erlend
parece não ter tantas certezas. Para já encontra-se a
trabalhar no seu projecto a solo.
"Ainda
não existem ideias precisas sobre o que vai suceder. Há
um ano que trabalho no meu projecto a solo. Estive em dez cidades ao
redor do Atlântico Norte a criar dez temas com dez produtores
electrónicos diferentes. Será algo de muito diferente dos
Kings. Para já estou a viver em Berlim e depois de terminar este
projecto vamo-nos concentrar no novo disco. Temos temas já
feitos, mas as ideias que os suportam são velhas. Seria muito
fácil lançar agora um novo disco, mas não o
queremos fazer. Queremos desenvolver ideias novas e para isso
necessitamos de tempo e disciplina. E em Bergen temos imenso tempo.
Gostamos de andar pelas montanhas, visitar os nossos pais ao
fim-de-semana... A nossa música é inspirada por essa
nostalgia dos fins-de-semana passados com os amigos quando
éramos crianças. É aquele sentimento de conhecer
alguém quando se tem oito anos e, depois, ao final do dia,
despedimo-nos e nunca mais nos vemos".
No
videoclip para "Failure" essa ideia de separação, de
distância, está presente. No video, Erlend é o
ausente, o que está em trânsito. Eirick é o que
fica em Bergen. Mas não está só; surge acompanhado
pela bonita e misteriosa rapariga que já figurava na capa de
"Quiet Is The New Loud".
"A
situação actual é de alguma distância. Tenho
regressado a Bergen com assiduidade, mas a comunicação
que temos desenvolvido tem passado pelo telefone e pelo e-mail. Eu sou
mais inquieto, Erik não gosta muito de sair de Bergen. Essa
é a justificação para não darmos mais
concertos. Mas a grande culpada é a namorada dele... [risos].
Resolvemos colocá-la na capa do disco porque cria ambiguidade.
Toda a gente se interroga: 'mas, eles não são apenas
dois? Quem é a rapariga?'"
No
final da conversa Erlend confidenciará que os Kings Of
Convenience já não dão espectáculos ao vivo
há muito tempo. O concerto do Meco vai ser o primeiro em meses.
Antes, e durante algum tempo, Erlend participou nos espectáculos
ao vivo dos compatriotas Röyksopp. De forma tão empenhada
que, dizem as crónicas, lhes roubava o protagonismo em palco.
"Quando
começei a cantar com os Röyksopp foi como se uma parte de
mim se tivesse revelado. Foi uma supresa descobrir que me sentia bem
como cantor. Sempre pensei em palco como algo que exige
exposição. Para mim trata-se mais de partilhar. Como se
estivesse entre 5000 mil amigos ao mesmo tempo. É muito especial
quando se olha para alguém do palco e se percebe que se
está a sentir algo de comum com essa pessoa. Estabelece-se uma
comunicação invisível. Nos espectáculos dos
Kings é tudo muito ao vivo, não existem truques.
Vê-se tudo o que está a acontecer, não há
nada para esconder. Somos só nós dois com as nossas vozes
e as nossas mãos sobre as guitarras".
Na
música da dupla existe uma dimensão pastoral. Em
Portugal, o duo vai tocar num festival que se desenrola num
espaço campestre. Entre árvores, erva ocasional e areia.
O espaço ideal para uma música intimista que deve tanto a
Nick Drake como a Tom Jobim?
"Somos,
sem dúvida, mais rapazes do campo do que da cidade... [risos].
Mas não tocamos muito em festivais. É importante que o
público esteja focado para perceber o que se está a
passar em palco, e nos festivais isso nem sempre é
possível. É incrível sermos um dos cabeças
de cartaz do festival. Gosto do facto de em Portugal gostarem de
nós, de conseguirmos comunicar com pessoas que não
conhecemos. Quando fomos a Itália pela primeira vez não
queríamos acreditar no que estava a suceder. As pessoas gostaram
mesmo de nós. Espero que em Portugal aconteça o mesmo.
É estranho: na Noruega ninguém quis saber de 'Versus9 -
com os Röyksopp, somos a banda mais conhecida da Noruega e nem
sequer fomos nomeados para os Grammy da indústria - e foi esse
disco que nos abriu muitas portas".
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