|
Kings Of Convenience:
Alguns Rapazes São Maiores Que Outros
Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2002
Há
um ano proclamaram "Quiet Is The New Loud" e mais tarde editaram o
disco de remisturas, "Versus". A sua música é
acústica, límpida, desarmante na sua vulnerabilidade. Os
noruegueses Kings Of Convenience colocaram mais uma cidade no mapa
imaginário da cartografia pop. De Bergen, o Y falou com Eirik.
Vítor
Belanciano
É
um desses discos que nos diz a todo o momento: a vida é simples,
as pessoas são pessoas em todo o lado, sentem as mesmas
emoções, com cores, formas, volumes e distensões
diferentes, mas depois, ao final do dia, todos querem partilhar as
mesmas coisas simples. Seja em Bergen, na Noruega, ou em Tóquio,
no Japão. É um desses discos que deixa um enorme
espaço em aberto para nos sussurar ao ouvido o que dele queremos
ouvir. Talvez porque a única música que interessa
verdadeiramente é aquela onde o que ouvimos é o que se
deseja ouvir.
Na
altura em que foi lançado, há cerca de um ano, poucos
olharam para ele assim, mas "Quiet Is The New Loud", assim se chama o
disco, foi fazendo o seu percurso sem receio do silêncio à
volta, anunciando lentamente uma revolução tranquila. De
boca em boca, de partilha em partilha da emoção. Depois,
em Dezembro passado, "Quiet Is The New Loud" voltou a surgir na forma
de álbum-compilação de remisturas. Erlend Oye e
Eirik Glambek Boe, os dois Kings Of Convenience, deram-lhe o nome de
"Versus". Nesse álbum, nomes como os Röyksopp, Andy Votel,
Alfie, Four Tet ou Ladytron revestiam canções
acústicas com roupagens electrónicas e o fascínio
adensava-se.
Na
actualidade, em tempo de sofisticadas combinações
tecnológicas, de procura da originalidade a todo o custo e de
busca de ideais de perfeição, "Quiet Is The New Loud", na
sua candura, no modo imperfeito e tosco de se fazer ouvir, na forma pop
romântica de se expor, pode soar anacrónico a alguns. Mas
esses, como haveria de dizer Eirik Glambek Boe, a partir da sua casa em
Bergen, "talvez ainda tenham medo do silêncio. De se ouvir a si
próprios no silêncio". Talvez.
O
tímido e o extrovertido
Erlend
tem ar de eterno estudante universitário. Daqueles que acabam o
curso, começam o mestrado e já pensam no doutoramento,
adiando o confronto com a vida adulta do trabalho. É
'caixa-de-óculos', dizem que é extrovertido, em palco
é eléctrico e no final dos concertos é aquele que
pergunta 'onde se pode ir dançar e beber copos'. Eirik é
moreno, tem ar de incurável romântico, em palco é
mais sossegado mas é ele que segura as pontas do
espectáculo, no final dos concertos é aquele que diz que
quer regressar ao conforto do quarto de hotel.
Foi
com Eirik que o Y falou, mas a proposta que lhe fizemos passava por uma
conversa virtual com Erlend. Isto é, pegámos em
declarações de Erlend, proferidas ao longo dos
últimos meses e desafiámos Eirik a comentá-las.
"As pessoas tendem a olhar-nos como sendo muito diferentes. É
verdade que Erlend é mais irónico e expansivo. Temos
opiniões diferentes sobre muitas coisas. Eu talvez seja mais
tranquilo, mas ao final do dia, somos apenas dois rapazes de 25 anos,
que se conhecem há oito, e que gostam de criar música.
Venham de lá essas declarações!".
Erlend:
"Aprendemos a tocar guitarra juntos, somos dois apaixonados por
música e isso cria necessariamente laços".
Eirik:
"É verdade, conhecemo-nos há muito, as nossas
famílias eram amigas. O nosso primeiro projecto chamava-se Skog,
deviamos ter cerca de 16 anos. O Erlend cantava, eu tocava guitarra e
tinhamos uma secção rítmica com mais dois amigos.
Queríamos ser como os Pink Floyd, mas as pessoas diziam que nos
parecíamos mais com os Joy Division... [risos]". Pelo facto de
soarem como os Joy Division, um produtor norueguês que preparava
uma compilação de homenagem ao grupo de Ian Curtis
resolveu convidar os Skog a integrá-la. "Na verdade, não
conhecíamos os Joy Division. Éramos apenas uma banda de
rock que queria aproveitar a oportunidade de entrar em estúdio.
A versão do tema 'The eternal' que fizemos nessa altura surgiu
como desenvolvimento natural do nosso trabalho. Foi nesse
período que descobrimos que os nossos dois timbres de voz podiam
coexistir na perfeição. Passámos a ser
então uma espécie de 'Joy Division meets Simon &
Garfunkel'... As pessoas tendem a pensar que as
comparações com Simon & Garfunkel são
recentes, mas não, datam desse período".
Erlend:
"Um grupo como os Belle & Sebastian fez-nos ver que não era
necessária saturação sonora para nos fazermos
entender, que era possível compor de forma subtil".
Eirik:
"Ao contrário de Erlend, não gosto por aí
além dos Belle & Sebastian, mas percebo a ideia. Sem
dúvida que a nossa intenção era reduzir a
instrumentação à sua expressão mais
simples. Quando começámos a trabalhar no álbum,
não nos queríamos focar exclusivamente na
produção de sons, como tem acontecido na maior parte da
música dos últimos 20 anos. Existe essa obsessão
por sons, especialmente digitais, e nós desejávamos
afastar-nos disso e focar a atenção na escrita de
canções. Na qualidade da melodia, nas letras. Essa era a
nossa ideia principal. A outra era criar espaço na
música. Procurar que o espaço entre a música
possuísse significado. Procurar o silêncio, não ter
medo dele. Na música moderna as pessoas têm medo do
silêncio, querem preenchê-lo a qualquer preço.
Querem construir sempre mais qualquer coisa, ajustar mais um som, mais
uma camada... O nosso objectivo era precisamente o oposto, deixar fluir
o silêncio. Deixar a música respirar, deixar que o
silêncio faça parte da canção".
E
se, em vez de "Quiet Is The New Loud", o álbum tivesse recebido
o título de "Sound Of Silence"? "Chegámos a pensar
nisso", afirma Eirik, "mas já havia diversos álbuns com
esse nome. No entanto, a intenção é a mesma. Na
música, principalmente no rock, a saturação sonora
mais não é do que uma forma de mascarar a falta de
confiança. Quando começámos a cantar os dois,
só com as nossas guitarras, percebemos que tínhamos de
confiar em nós, que não podíamos ter medo de nos
expor".
Erlend:
"A composição é um trabalho em comum, mesmo que um
de nós comece por desenvolver uma ideia. Discutimos muito. A
nossa música é simples, mas não primária,
reflectimos muito sobre ela".
"Ele
disse isso? Mas onde é que ele estava com a cabeça?", diz
, entre risos, Eirik. "É verdade que gostamos de experimentar.
Acho que nunca fomos para estúdio com uma canção
acabada. Normalmente tentamos coisas diferentes. Quando entrámos
em estúdio para gravar 'Quiet Is The New Loud' mandámos
quase tudo o que havíamos preparado para o lixo. Ficámos
de mãos vazias e tivemos que criar tudo de novo. Já
estamos a trabalhar no novo álbum e sinto que estamos a
experimentar ainda mais. Será um álbum, mais uma vez,
muito acústico, mas terá canções pop com
batidas. Será mais variado que 'Quiet...'".
Erlend:
"Em Bergen existem muitos grupos interessantes, mas a maior parte
é muito preguiçosa. Em geral, satisfazem-se com dois
concertos por ano porque têm vergonha de serem reconhecidos na
rua principal da cidade. Por isso, passam a maior parte do tempo nos
bares a beber cerveja e a falar do que poderia acontecer se não
fossem preguiçosos".
"É
por isso que não bebemos álcool", ironiza Eirik.
"Não frequentamos os bares de Bergen, estamos ocupados a viajar
por todo o mundo". Eirik brinca, mas sabe que a projecção
que a música proveniente de Bergen tem conhecido nos
últimos meses não é um acaso. "Bergen é uma
pequena cidade, mas com uma identidade cultural muito forte. Não
é uma cidade industrial ou de negócios. Existem por aqui
muitas pessoas ligadas às artes e à música.
São esses os alicerces que têm permitido a muitos
projectos daqui crescer. Existe muita música boa por aqui, de
momento".
Erlend:
"Estou certo de que as paisagens de Bergen tiveram maior
influência na nossa forma de compor do que qualquer grupo folk
inglês ou americano. Aliás, quando me falam de folk, penso
sobretudo no folclore local, nas canções que aprendemos
na escola. Nas histórias tristes e delirantes da Noruega. A
melancolia da nossa música provém disso, mais do que da
audição de qualquer disco de Nick Drake ou Tom Jobim".
Eirik:
"Talvez a nossa música reflicta a atmosfera de Bergen, mas
é difícil dizer. É como perguntarem-me que parte
de mim pertence ao ambiente onde vivo. Não sei responder a isso.
A única coisa que posso dizer é que sinto que não
existe um 'som de Bergen'. Quando se ouve os Röyksopp e a seguir
uma banda de 'black-metal' é impossível não ver as
diferenças... [risos]. Bergen é a capital da
música 'black-metal'. Não conheço ninguém
dessa 'cena' mas é o que me dizem. Mas, como diz Erlend, aquilo
que vivemos, que nos contaram e que está à frente dos
nossos olhos marca-nos. É essa a nossa realidade, não se
pode fugir disso". E como descreveria Bergen? "Posso fazê-lo a
partir do que estou a ver neste momento da minha janela: montanhas
muito altas que cercam toda a cidade. O céu está cheio de
nuvens. Em Bergen o céu está quase sempre assim, muito
dramático. Posso também ver a pequena cidade a meus
pés, com uma mistura de velhos e novos prédios. Vejo
barcos ao lado de alguns fiordes. Vejo também um passáro,
a minha casa está rodeada deles. É uma vista
óptima".
Coisas
simples. Depois do grunge, do tecno ou do drum 'n' bass, os Kings Of
Convenience parecem querer um regresso às expressões mais
simples da música. Mas essa vontade não esconde nenhum
desejo de regresso ao passado. "Quando as pessoas dizem que somos
'retro', sinto que não entendem o nosso ponto de vista",
argumenta Eirik. "Enquanto ouvinte, já passei por todos os
estádios da pop moderna e da música electrónica e
sinto que fazemos parte do mesmo universo. Não vejo
contradição nenhuma em fazer música com uma
guitarra acústica ou com um computador. Não interessa
como se cria, mas o resultado. Pessoalmente, não sei como operar
com um computador, nunca perdi tempo a aprender a funcionar com um...
não quero dizer que perderia alguma coisa em fazê-lo, mas
para mim é mais gratificante tocar guitarra. Podem-se fazer
coisas incríveis com tecnologia, mas tocar guitarra continua a
ser mágico. Afinal, talvez não passe de um
romântico".
Erlend:
"A minha banda preferida são os Red House Painters, mas para
dançar são os Smiths. Só os comecei a ouvir em
1998, mas as suas letras são incomparáveis e as
canções têm a dimensão exacta. E perdoo a
arrogância de Morrisey. Ele pode dizer o que lhe apetecer, eu
perdoo-lhe."
Erik:
"Eu não... gosto de toda a música desde que sejam boas
canções." Apesar da declaração de Eirik, a
verdade é que o álbum de remisturas "Versus",
lançado em Dezembro passado, continha releituras que nem sempre
respeitavam o formato clássico da canção.
"É verdade", reconhece, "é uma forma de dizermos que
também gostamos de música electrónica. Gosto muito
de bandas como os Air, Röyksopp ou o projecto norueguês
Biosphere. Gosto de música com batidas. Eu próprio toco
bateria e percebo o fascínio do ritmo, o seu poder de
sedução. É bom poder ouvir as nossas
canções no formato de remistura. A ideia das remisturas
foi nossa e a maior parte dos nomes foram indicados por nós.
Começámos com o nosso amigo Erot e depois com os
Röyksopp. No fundo, tentámos perceber o que é que os
nossos amigos conseguiam fazer com a nossa música."
Erlend:
"Tento não ver muita TV. A vida devia ser como se
estivéssemos num filme. E quem é que quer ver um filme
sobre uma pessoa que passa o tempo a ver TV? As nossas letras tentam
reflectir coisas simples, aquelas que realmente interessam".
Eirik:
"Sim, diria que as letras tentam ser simples, mas existe, ao mesmo
tempo, um elemento de distância. Tentamos olhar as coisas com
alguma abstracção. A vida não se resume a ideias
simples como: amo-te, quero casar e ter filhos contigo. É mais
complicada do que isso. Os escandinavos têm fama de ter medo das
emoções, daquilo que dizem ser emoções em
demasia, como se elas se pudessem quantificar. Expor sentimentos
não é uma qualidade estimada na cultura escandinava e, em
alguns países, fomos criticados por sermos demasiado
sentimentais. Na verdade, a nossa música possui um certo
elemento de ironia. Reflecte emoções, claro, mas ao mesmo
existe nela uma clareza de ideias que têm a ver com a
distância. Mas não negamos que aquilo que nos interessa
é falar das emoções, das relações
entre as pessoas, porque é isso que dá significado
à vida".
Erlend:
"Vivo com os meus pais porque antes de assinar o primeiro contrato com
os Kings Of Convenience não tinha dinheiro. Se gosto de viver
com eles? Sim e não. Eles já não estão
juntos, mas vivem na mesma casa. Não, não creio que
resulte".
"O
pai vive no andar de cima e a mãe no de baixo", refere Erik,
entre muitos risos. "É um pouco estranho mas... o Erlend fala
muito da sua infância e dos amigos boémios dos pais. Dos
serões onde se discutia política e se escutava
música. O meu pai morreu quando era criança, cresci no
meio de mulheres. A minha mãe e a de Erlend lutaram pelos seus
direitos e nós, na Noruega, somos sem dúvida o produto
dessa geração".
E
quem é a rapariga que aparece abraçada a Erik na capa do
álbum "Quiet Is The New Loud"?
"A
minha namorada. Vivemos juntos. Eu estudo psiquiatria, ela medicina e,
ocasionalmente, é manequim. Para nós, foi uma grande
surpresa que este pequeno projecto tenha conseguido transformar-se numa
coisa muito maior do que estávamos à espera. Foi um
bocado assustador ao princípio, mas descobri que podemos
controlar a maior parte das coisas. Não temos mão sobre
tudo, mas já não vivo em ansiedade por causa disso".
|
|