Diário de Notícias Interview
Entrevista com os Kings of
Convenience: Sonhos numa noite de Verão
NUNO GALOPIM
É curioso
verificar que uma banda essencialmente acústica, como
vós, se apresente no cartaz de um festival centrado na
música de dança...
Erlende Oye - Acho que até somos uma
banda muito rítmica.
Na verdade, o
público mais ligado à música de dança
aprecia bastante o vosso som...
Eirik Glambek - Creio que isso talvez se deva
ao nosso próprio gosto, já que ambos apreciamos muito a
música electrónica e uma música ritmada. Talvez
por isso conseguimos comunicar com quem tenha esses gostos porque,
afinal, são também os nossos próprios gostos.
E.O. - Creio que as pessoas gostam da nossa
música porque não tem a ver com o rock nem com a
dança. Está livre das "batidas erradas"... Muitas pessoas
da área da dança não gostam de rock porque
não tem a batida certa. Connosco isso não acontece.
Não temos de escolher a batida...
O concerto que
vão apresentar hoje à noite é acústico?
E.G. - Sim.
E.O. - Acredito que o próprio festival
estivesse à espera que fizéssemos um concerto mais na
linha do disco de remisturas.
Mas não costumam
fazer esse tipo de concerto!
E.O. - Nem sequer o podemos fazer! A
única verdadeira grande força dos Kings Of Convenience
é o facto de termos um espectáculo ao vivo que é
mesmo ao vivo! É uma fuga a uma regra dos dias de hoje, em que
muitos usam dispositivos electrónicos que recorram a
música pré-gravada. Temos as guitarras e cantamos...
Não vejo a necessidade de nos tentarmos adaptar aos eventos onde
tocamos.
"Versus" é um
disco de remisturas muito peculiar. Quase que funciona como
revelação de estruturas rítmicas e arranjos quase
implícitos nos originais...
E.G. - Decidimos mesmo editar o disco de
remisturas porque, no fim, apesar das interpretações
serem bem diversas, os temas nunca deixam de ser canções.
Não perdem a sua integridade. Poderíamos ter feito um
álbum imbecil de remisturas a partir de canções
nossas, mas isso não aconteceu em função das
qualidades das pessoas que convidámos para fazer as remisturas.
Se tivesse sido gente que se limitasse a aplicar batidas
electrónicas às canções teria sido
diferente.
"Quiet Is The New Loud"
tem já ano e meio de vida. Já começaram a pensar
por que rumo vai seguir a vossa música?
E.O. - Como estou a trabalhar num projecto
paralelo [mais elecrónico] tenho saciado aí o meu apetite
num certo tipo de som... Para mim, os Kings Of Conevience serão
espaço para fazer algo completamente diferente. Não sei o
que o Eirik diz a isso... (risos)
E.G. - Bom, não tenho escolha... Podemos
fazer um disco com instrumentos medievais (risos).
Começaram por
ser uma pequena banda de uma cidade da qual até há pouco
tempo mal se ouvia falar. Este estatuto "global" assenta-vos bem?
Vestem bem esta pele?
E.G. - Temos objectivos diferentes. Os meus
nunca foram os de estar numa banda popular. Creio que o Erlende sempre
sonhou com isto.
E.O. - Vir a Portugal, comunicar com o
público aqui mesmo, conquistar novos admiradores... Isso
é bonito e dá um objectivo à minha vida. Ficarei
muito feliz se as pessoas desejarem que volte para tocar para eles...
Há,
então, algo de realmente autobiográfico nas entrelinhas
do "videoclip" de "Failiure"... O Erlende sai e é mais
expansivo, enquanto o Eirik fica, tranquilo, em "casa"...
E.O - Sim... De certa forma fui eu quem fez
força para que se procurasse uma editora... O Eirik ficaria
feliz se os nissos amigosa dissessem que a música era bonita.
Que perda! (risos).
Custa-lhe esta
exposição pública?
E.G. - Não custa se não
ultrapassar um certo degrau e eu puder ter a minha vida e não
ser reconhecido onde quer que vá.
Tem
ambições pessoais exteriores à música?
E.G. - Tenho algumas ambições
pessoais e ambições musicais. Mas estas últimas
não meço em termos de números de vendas.
O Erlende gravou
recentemente uma versão para um tributo a Lee Hazlewood.
É um músico que aprecie particularmente?
E.O. - Gosto de alguns dos seus discos, sim
(mas algumas vezes mais pelo factor comédia). O que se passou
é que fui convidado a participar nesse disco. Encontrei uma
canção de cuja letra gostei mas com uma música que
não me entusiasmou muito. Tentei, então, fazer a nova
música para aquela canção. Ficou um pouco como as
versões do Mark Kozelek às canções dos
AC/DC.
Hoje à noite o
Erlende vai fazer um "set" de DJ no Meco?
E.O. - Sim, vamos ainda ver o que toco...
Costuma actuar como DJ?
E.O. - Sim, mas talvez o passe a fazer mais a
partir de agora. Como vou editar esse tal disco, talvez actue como DJ
para o promover.
Ao actuar como DJ
está atento às reacções do público,
mudando o rumo dos acontecimentos de ninguém dançar?
E.O. - Sim, claro! Fazer pessoas dançar
com música que outros fizeram é uma
sensação incrível. Sinto a obrigação
de fazer as pessoas dançar e não tento obrigá-las
a ouvira minha visão musical. Tento tocar coisas antigas e
coisas novas... Mas sobretudo coisas que as pessoas ainda não
descobriram que esteja por aí...
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