| Título: |
| Kings of Convenience: Gestão de conforto na Aula Magna |
| Data: |
| 30-04-2006 |
«Vamos tocar a
quarta música - o ambiente começou por estar um pouco
nervoso, agora está a aquecer». O esclarecimento dado por Erik Glambek
àqueles que chegaram tarde ao concerto deste Sábado, na Aula Magna,
descreve na perfeição o arranque do espectáculo da dupla norueguesa.
Pela primeira vez entre nós, em nome próprio, os Kings of Convenience
demoraram a instalar na sala, mais do que lotada, aquele calor que
brota do intimismo, e não tanto do conforto excessivo que, desde a
primeira música ('Until You Understand'), ameaçou controlar a sua
actuação.
Nem
sempre as circunstâncias funcionam da forma que esperamos: em 2002,
poucos acreditariam que os Kings of Convenience saíssem de um festival
de música de dança (o Hype @ Meco) coroados de êxito, conquistando fãs
e leigos com as suas canções ingénuas e apenas tangencialmente
dançáveis. Ontem, num cenário "ideal" para desfrutar, sentado, as
subtilezas acústicas dos autores de "Quiet Is The New Loud", o
espectáculo foi memorável mais pela comunhão de palco
registada no final do que por qualquer surpresa ou rasgo de génio.
Erik Glambek, o bonitão discreto, e Erlend Oye, o geek
sociável, entraram em palco iguais a si mesmo: altos, enxutos, de
guitarra acústica em riste e vozes em graus compatíveis de ternura,
capaz de anestesiar por breves segundos dores de (quase) todo o tipo.
'Love Is No Big Truth', mais veraneante, e 'Cayman Islands', com o
simples jogo de luzes a pintar as cortinas de verde, indicaram um
caminho seguro, mas porventura demasiado certinho, para o concerto. 'I
Don't Know What I Can Save You From', a tal que Erik anunciou como
sendo capaz de «aquecer» o ambiente, cumpriu a promessa. «We love
you!», gritou uma voz masculina no escuro. «I love you too, stranger»,
retribuiu com serenidade Erik.
'Winning A Battle' e 'Gold In The
Air of Summer' empurraram os Kings of Convenience na curva ascendente
do espectáculo - a ajudar estiveram as breves passagens pelo piano,
dando um novo corpo às (excelentes) canções, a atrapalhar as palmas
ansiosas do público. Em 'Singing Softly To Me', a banda sugeriu os
menos intrusivos estalidos de dedo, como alternativa, mas mais à frente
a tentação das palmas havia de regressar, de forma tão infeliz que um
dos reis desabafou mesmo: «If you're going to clap, do it better».
A
sôfrega aceitação de tudo o que se passava em palco, desde as fífias de
Erik em 'Corcovado' ao discurso de Erlend sobre o fim dos passeios à
beira-rio, acabou de resto por prejudicar o natural fluir do concerto.
Na recta final, os noruegueses chamaram para tocar consigo um baixista
italiano e um tocador de viola alemão, cujo contributo resultou em
beleza. A sequência 'Misread' / 'Toxic Girl' / 'I'd Rather Dance' tinha
tudo para sair vencedora, e o facto de, na terceira destas músicas, os
Kings of Convenience terem apelado à invasão de palco fez o resto. Um
bom terço da Aula Magna terá dançado com Erlend e esperado o regresso
do resto da banda para assistir, já sentado no chão do palco, a um
encore com 'Paralell Lines', 'Waiting In Vain' (versão nua para o
clássico de Marley) e 'Little Kids'. Por esta altura, já tudo era
indistinto: o palco e o público que o atulhava, a música e os músicos,
quase invisíveis, que a produziam. A Erlend, master of
cerimonies
falsamente desastrado, só faltava saltar à corda usando o cabo do
microfone. Apesar do arranque demasiado comportado e de alguma
condescendência por parte do público, a banda provou como consegue ser
especial em qualquer circunstância, e a noite acabou com uma apoteose
cor-de-rosa, a condizer com a segunda t-shirt do encalorado
Erlend Oye.
Lia Pereira
Diário Digital review
Kings of Convenience na Aula Magna: Simplicidade
nórdica
Ana Baptista
Os
Kings of Convenience regressaram a Portugal, na noite de sábado, para
aquele que foi o primeiro concerto a sério da banda, longe do pó e do
palco nada intimista do festival do Meco, onde tocaram há cinco anos.
Ontem não faltou intimismo e até intimidade, num espectáculo que
terminou com mais de cem pessoas a dançar em cima do palco.
Erlend Oye e Erik Glambek formam os Kings of Convenience. Vêm do frio,
mais precisamente de Bergen, na Noruega, mas fazem canções capazes de
aquecer a alma a qualquer um. O ambiente a meia luz, o intercalar de
canções mais solarengas com outras mais ternurentas, a cumplicidade
entre guitarras e às vezes entre piano e voz tornaram o ambiente
perfeito para que a Aula Magna se tornasse no local mais bem disposto e
pacífico do mundo.
Mas não foi
apenas com a música que se
criou este ambiente quase perfeito (apenas porque nada é totalmente
perfeito!). Pelo meio houve histórias – de passeios à beira rio e de
locais ideais para uma pessoa se apaixonar ou de como era difícil
cantar em português sem se perceber o significado do que se dizia. Isto
porque Erik Glambek arriscou cantar «Corcovado», de António Jobim e até
nem se saiu nada mal. As palmas foram para o esforço.
Houve ainda
coros, músicas cantadas
quase em sussurro, dedos a estalar a pedido de Erlend, muitas palmas de
um público claramente rendido desde o primeiro acorde, a presença do
baixista e produtor do último álbum dos Kings e de um violinista alemão
para acompanhar a recta final do concerto, e humor (muito humor) vindo
principalmente do extrovertido e imprevisível Erlend.
Aliás, foi
ele que no início de «I`d
Rather Dance With You» pediu aos seguranças para deixarem passar as
pessoas da plateia para, em cima do palco, dançar com elas todas. O
espectáculo terminou com mais três canções, já no encore, com o palco
cheio de pessoas sentadas a entoar suavemente «I don`t wanna wait in
vain for your love». Memorável.
30-04-2006
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